Germania, de Tácito
| Título | De origine et situ Germanorum (“Sobre a origem e o território dos germanos”) |
| Autor | Públio Cornélio Tácito (c. 56 – c. 120 d.C.), historiador e senador romano |
| Data | 98 d.C. |
| Língua | Latim |
| Extensão | 46 capítulos curtos: caps. 1–27 sobre os germanos em geral, 28–46 sobre cada povo |
| Transmissão | Um único manuscrito medieval (Codex Hersfeldensis), redescoberto no século XV e hoje perdido, conhecido por cópias renascentistas |
Como ler esta fonte
Seção intitulada “Como ler esta fonte”A Germania é a fonte mais antiga e mais citada sobre a religião germânica. Mas tem limites que todo leitor precisa conhecer: Atestadosobre a obra
- Tácito provavelmente nunca esteve na Germânia. Ele escreveu a partir de autores anteriores (sobretudo as Guerras Germânicas, obra perdida de Plínio, o Velho), de relatos de militares e comerciantes e de informantes germânicos em Roma.
- Ele usa nomes romanos para os deuses germânicos (Mercúrio, Hércules, Marte). É a interpretatio romana, expressão que vem do próprio Tácito (cap. 43). Identificar quem é quem é trabalho nosso.
- Ele escreve para romanos. Os germanos às vezes aparecem como “bons selvagens”, um espelho moral para criticar a Roma de seu tempo.
- O livro foi abusado. A partir do século XIX, e sobretudo sob o nazismo, a Germania foi lida como “bíblia” de pureza racial. O Instituto lê Tácito como fonte histórica, com o mesmo rigor crítico que se aplica a qualquer outra.
Mesmo com esses limites, muitos dados de Tácito são confirmados pela arqueologia e por fontes posteriores: o culto em bosques e lagos, os sacrifícios, as deusas da terra.
Os capítulos religiosos
Seção intitulada “Os capítulos religiosos”Cap. 2: a origem dos germanos
Seção intitulada “Cap. 2: a origem dos germanos”Celebrant carminibus antiquis, quod unum apud illos memoriae et annalium genus est, Tuistonem deum terra editum. Ei filium Mannum, originem gentis conditoremque, Manno tres filios adsignant, e quorum nominibus proximi Oceano Ingaevones, medii Herminones, ceteri Istaevones vocentur.
Celebram em cantos antigos, que são entre eles o único tipo de memória e de anais, o deus Tuisto, nascido da terra. A ele atribuem um filho, Mannus, origem e fundador do povo. A Mannus atribuem três filhos, de cujos nomes se chamam ingevões os mais próximos do Oceano, herminões os do meio e istevões os demais.
- É o único mito de origem germânico registrado na Antiguidade. Atestado
- Mannus é a palavra germânica para “homem, ser humano”. O mito narra a origem da humanidade e dos povos. Atestadolinguística
- Os Ingaevones são comparados ao deus nórdico Yngvi-Freyr (Ingwaz), e os Herminones, a Irmin, como na Irminsul. Inferidocomparação
- A transmissão em cantos mostra uma cultura oral, sem escrita histórica.
Cap. 3: Hércules
Seção intitulada “Cap. 3: Hércules”Fuisse apud eos et Herculem memorant, primumque omnium virorum fortium ituri in proelia canunt.
Contam que também Hércules esteve entre eles e, quando vão para a batalha, cantam-no como o primeiro de todos os homens valentes.
- Hércules seria Donar. Inferidointerpretatio romana
Cap. 7: os sacerdotes e as insígnias sagradas
Seção intitulada “Cap. 7: os sacerdotes e as insígnias sagradas”Ceterum neque animadvertere neque vincire, ne verberare quidem nisi sacerdotibus permissum, non quasi in poenam nec ducis iussu, sed velut deo imperante, quem adesse bellantibus credunt. Effigiesque et signa quaedam detracta lucis in proelium ferunt.
Aliás, punir, prender ou mesmo açoitar só é permitido aos sacerdotes, não como castigo nem por ordem do chefe, mas como por ordem do deus que, acreditam, está presente junto aos combatentes. E levam para a batalha imagens e certas insígnias tiradas dos bosques sagrados.
- Na guerra, a disciplina é sagrada: é o deus quem pune. Alguns autores ligam esse deus a Tiw. Inferido
- Os bosques guardavam objetos de culto (imagens, insígnias) que saíam para a guerra. Atestado
Cap. 8: as mulheres sagradas
Seção intitulada “Cap. 8: as mulheres sagradas”Inesse quin etiam sanctum aliquid et providum putant, nec aut consilia earum aspernantur aut responsa neglegunt. Vidimus sub divo Vespasiano Veledam diu apud plerosque numinis loco habitam.
Acreditam até que há nelas [nas mulheres] algo de sagrado e de profético, e não desprezam os seus conselhos nem ignoram as suas respostas. Vimos, no tempo do divino Vespasiano, Veleda, por muito tempo tida pela maioria como uma divindade.
- A profetisa Veleda, dos brúcteros, existiu de fato e aparece também nas Histórias de Tácito. Atestado
- Combina com as idisi de Merseburg, as Matronae e as videntes nórdicas (vǫlur). Inferido
Cap. 9: os deuses e os bosques
Seção intitulada “Cap. 9: os deuses e os bosques”Deorum maxime Mercurium colunt, cui certis diebus humanis quoque hostiis litare fas habent. Herculem ac Martem concessis animalibus placant. […] Ceterum nec cohibere parietibus deos neque in ullam humani oris speciem adsimulare ex magnitudine caelestium arbitrantur: lucos ac nemora consecrant, deorumque nominibus appellant secretum illud, quod sola reverentia vident.
Entre os deuses, cultuam sobretudo Mercúrio, a quem em certos dias consideram lícito oferecer também vítimas humanas. Aplacam Hércules e Marte com os animais permitidos. […] De resto, julgam que não convém à grandeza dos celestes encerrar os deuses entre paredes nem representá-los com aparência humana: consagram bosques e matas, e dão nomes de deuses àquele mistério que só veem pela reverência.
- É a passagem central: os três deuses (Wodan, Donar e Tiw), os sacrifícios e o culto em bosques. Atestadoo texto Inferidoas identificações
- A frase “sem paredes nem imagens” é contrariada pela arqueologia: ídolos de madeira como os de Oberdorla e Braak, e as imagens do próprio cap. 7. Tácito generaliza. Atestadoarqueologia
- O trecho omitido ([…]) fala de um culto de parte dos suevos a “Ísis”, com um símbolo em forma de navio. A identidade da deusa é discutida.
Cap. 10: a sorte e os cavalos sagrados
Seção intitulada “Cap. 10: a sorte e os cavalos sagrados”Auspicia sortesque ut qui maxime observant. Sortium consuetudo simplex. Virgam frugiferae arbori decisam in surculos amputant eosque notis quibusdam discretos super candidam vestem temere ac fortuito spargunt. Mox, si publice consultetur, sacerdos civitatis, sin privatim, ipse pater familiae, precatus deos caelumque suspiciens ter singulos tollit, sublatos secundum impressam ante notam interpretatur.
Observam como ninguém os auspícios e as sortes. O costume das sortes é simples. Cortam um ramo de árvore frutífera em varetas e, depois de distingui-las com certos sinais, espalham-nas ao acaso sobre um pano branco. Então, se a consulta é pública, o sacerdote da comunidade, e se é privada, o próprio pai de família, depois de rezar aos deuses e olhando para o céu, ergue três varetas, uma de cada vez, e as interpreta segundo o sinal antes gravado.
- É o único relato antigo de um método de adivinhação germânico. Atestado
- As notae (sinais) não são necessariamente runas: as runas mais antigas são cerca de um século posteriores. Inferidodebate
- O capítulo também fala de cavalos brancos sagrados, criados nos bosques e nunca usados no trabalho, cujos relinchos eram interpretados pelo sacerdote e pelo rei.
- A consulta privada é feita pelo pai de família, o que mostra um culto doméstico, sem necessidade de sacerdote.
Cap. 11: noites e luas
Seção intitulada “Cap. 11: noites e luas”Coeunt, nisi quid fortuitum et subitum incidit, certis diebus, cum aut inchoatur luna aut impletur; nam agendis rebus hoc auspicatissimum initium credunt. Nec dierum numerum, ut nos, sed noctium computant. Sic constituunt, sic condicunt: nox ducere diem videtur.
Reúnem-se, a não ser que algo imprevisto aconteça, em dias certos, quando a lua começa ou está cheia, pois acreditam ser este o início mais auspicioso para os assuntos. Não contam o número de dias, como nós, mas o de noites. Assim marcam e assim combinam: a noite parece conduzir o dia.
- É a base do Calendário do Instituto. Atestado
Cap. 27: os funerais
Seção intitulada “Cap. 27: os funerais”Funerum nulla ambitio: id solum observatur, ut corpora clarorum virorum certis lignis crementur. […] Lamenta ac lacrimas cito, dolorem et tristitiam tarde ponunt. Feminis lugere honestum est, viris meminisse.
Não há pompa nos funerais. Só se observa que os corpos dos homens ilustres sejam cremados com certas madeiras. […] Deixam logo os lamentos e as lágrimas, mas tarde a dor e a tristeza. Às mulheres convém chorar; aos homens, lembrar.
- A cremação é confirmada pela arqueologia para a maior parte da Germânia nesse período. Atestado
Cap. 39: o bosque dos semnões
Seção intitulada “Cap. 39: o bosque dos semnões”Stato tempore in silvam auguriis patrum et prisca formidine sacram omnes eiusdem sanguinis populi legationibus coeunt caesoque publice homine celebrant barbari ritus horrenda primordia. Est et alia luco reverentia: nemo nisi vinculo ligatus ingreditur, ut minor et potestatem numinis prae se ferens. […] Eoque omnis superstitio respicit, tamquam inde initia gentis, ibi regnator omnium deus, cetera subiecta atque parentia.
Em época fixa, todos os povos do mesmo sangue se reúnem, por meio de embaixadas, numa floresta sagrada pelos augúrios dos antepassados e por um antigo temor e, com o sacrifício público de um homem, celebram os horrendos começos de um rito bárbaro. Há outra reverência ao bosque: ninguém entra nele sem estar amarrado, como inferior e para manifestar o poder da divindade. […] Toda a religião deles se volta para isto: como se dali viessem as origens do povo, ali estivesse o deus que reina sobre tudo, e o resto lhe fosse sujeito e obediente.
- É um santuário central de uma federação de povos, com assembleia periódica. Atestado
- O “deus que reina sobre tudo” (regnator omnium deus) já foi identificado com Tiw, Wodan e outros. Não há consenso. Inferidodebate
Cap. 40: Nerthus
Seção intitulada “Cap. 40: Nerthus”[…] in commune Nerthum, id est Terram matrem, colunt eamque intervenire rebus hominum, invehi populis arbitrantur. Est in insula Oceani castum nemus, dicatumque in eo vehiculum, veste contectum; attingere uni sacerdoti concessum. […] Laeti tunc dies, festa loca, quaecumque adventu hospitioque dignatur. Non bella ineunt, non arma sumunt; clausum omne ferrum; pax et quies tunc tantum nota, tunc tantum amata, donec idem sacerdos satiatam conversatione mortalium deam templo reddat. Mox vehiculum et vestis et, si credere velis, numen ipsum secreto lacu abluitur. Servi ministrant, quos statim idem lacus haurit.
[…] cultuam em comum Nerthus, isto é, a Terra Mãe, e acreditam que ela intervém nos assuntos dos homens e visita os povos. Há numa ilha do Oceano um bosque sagrado, e nele um carro consagrado, coberto por um pano; só ao sacerdote é permitido tocá-lo. […] São então dias alegres, e festivos os lugares que ela honra com sua chegada e hospedagem. Não se vai à guerra, não se pegam em armas; todo o ferro fica guardado. Só então se conhecem e se amam a paz e a tranquilidade, até que o mesmo sacerdote devolva ao santuário a deusa saciada do convívio com os mortais. Logo o carro, o pano e, se quiseres crer, a própria divindade são lavados num lago secreto. Servem nisso escravos, que o mesmo lago logo engole.
- É a descrição mais detalhada de um rito germânico na Antiguidade. Atestado
- O nome Nerthus corresponde exatamente ao nórdico Njǫrðr, deus masculino. Isso levanta a hipótese de um par divino ou de uma mudança de gênero. Inferidolinguística
- Carros cerimoniais encontrados em turfeiras dinamarquesas (como os de Dejbjerg) ilustram bem o rito. Inferidoarqueologia
- A paz sagrada durante a procissão é um modelo para os festivais do Instituto: nos dias de festa, nada de conflito.
Cap. 43: os Alcis e a interpretatio romana
Seção intitulada “Cap. 43: os Alcis e a interpretatio romana”Apud Naharvalos antiquae religionis lucus ostenditur. Praesidet sacerdos muliebri ornatu, sed deos interpretatione Romana Castorem Pollucemque memorant. Ea vis numini, nomen Alcis.
Entre os naarvalos mostra-se um bosque de religião antiga. Preside-o um sacerdote em trajes de mulher, mas, pela interpretação romana, os deuses são lembrados como Castor e Pólux. Esse é o poder da divindade, cujo nome é Alcis.
- É daqui que vem a expressão interpretatio romana. Atestado
- Um dos raros nomes germânicos de deuses citados por Tácito: um par de irmãos divinos, como os Dióscuros. Atestado
Tácito no Germania Institut hoje
Seção intitulada “Tácito no Germania Institut hoje”- Calendário: a contagem por noites e as reuniões na lua nova e na lua cheia (cap. 11) estruturam o calendário do grupo.
- Lugares de culto: a preferência por bosques e ao ar livre (cap. 9) orienta a escolha dos lugares de culto.
- Sortes: o método das varetas (cap. 10) pode ser praticado como adivinhação, feito pelo “pai” ou pela “mãe de família” em consulta privada.
- Paz sagrada: inspirada em Nerthus (cap. 40), vale durante os festivais.
Bibliografia
Seção intitulada “Bibliografia”- TÁCITO. Germania. Edição crítica: ÖNNERFORS, Alf (ed.). Stuttgart: Teubner, 1983 (verificar).
- RIVES, J. B. Tacitus: Germania. Tradução, introdução e comentário. Oxford: Clarendon Press, 1999.
- KREBS, Christopher B. A Most Dangerous Book: Tacitus’s Germania from the Roman Empire to the Third Reich. Nova York: W. W. Norton, 2011.
- SIMEK, Rudolf. Dictionary of Northern Mythology. Cambridge: D. S. Brewer, 1993.
